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MEND THE GAP
(o vazio que transborda em vida: pintura)

PT: (English version below)

O ser humano é entendido como corda (tensão) sobre o abismo (o gap, a fenda). É ponte e não finalidade, é abertura, becoming, algo que ainda preserva o caos da criação, da potência.

O criador constrói um tempo dentro do tempo, liberta-se das amarras da sua finitude para exceder o seu próprio tempo em obra. Esta é testemunho do vazio íntimo, um vazio como espaço de gestação. A criação nunca preenche esse espaço, essa ausência de fundo.

 

É o mend, uma dança nesse vazio?

 

O sujeito criador é influenciado por temperamentos e habitado por outros que o fazem redefinir-se, recriar-se – e que o abrem à estranha e inquietante paixão que leva à necessidade do ato criativo: ato de liberdade e resistência, é um tempo-espaço de reinvenção da própria vida pelos meios de expressão.

 

Num compromisso e persistência na tradição da pintura, ao pintar procuro entrar pelo espaço da linguagem, alargá-lo, desbravar novos caminhos, novas formas. Procuro novas possibilidades pela errância permitida, pelo desconhecido que arrisca tanto a falha, como o encontro do que ainda não se sabe.

É a pintura que impõe um rumo à medida que se faz - e a isso tenho de estar à altura. É preciso uma leveza ágil, uma distração de atenção profunda, um esquecimento que permite a concentração no ato criativo.

O tempo da pintura é um tempo de dinâmicas, de gestos de sucessões, de intensidades de atenção a determinadas coisas, um jogo da visão e da ação-reação do corpo e da tinta.

As minhas pinturas parecem muitas vezes remeter para espaços imaginários mentais, estados de espírito feitos de transparências, escorridos, gestos e pastosidade: o território da pintura.

A minha narrativa não é linear, mas sim enigmática. Detém uma qualidade cinematográfica, conta histórias in media res, sem princípio nem fim, retratando personagens irresolvidos. Dá-se aí um esbatimento/ambiguidade intencional entre ficção/realidade, imaginário/factual, pelo reavivar de imagens da cultura e pela força especulativa da poesia.

EN:

The human being is understood as a rope (tension) over the abyss (the gap, the rift). It’s bridge and not objective, it’s opening, becoming, something that still preserves the chaos of creation, potential.

The creator builds a time within time, frees himself from the bonds of his finitude to exceed his own time in work. This is a testimony of the intimate void, the emptiness as a fertile space. Creation never fills this space, this absence of substance.

 

It’s the mend, a dance in this emptiness?

 

The creative being is influenced by temperaments and inhabited by others who make him redefine/recreate himself – opening up to the unsettling and disturbing passion that leads to the necessity of the creative act: an act of freedom and resistance, a time-space of reinventing one's life by means of expression.

 

In a commitment and persistence in the painting’s tradition, in painting I try to enter through the space of language, to widen it, to open new paths, new forms. I look for new possibilities allowed by the wandering, by the unknown that risks both the failure and the meeting of what is not yet known.

It’s painting that imposes a course while it’s done - and that’s what I have to be up to it. It takes a buoyant agility, a distraction of deep attention, a forgetfulness that allows concentration in the creative act.

Painting time is a time of dynamics, succession gestures, attention intensities to certain things, a set of vision and action-reaction of the body and the paint.

My paintings often seem to refer to mental imaginary spaces, states of mind made of transparencies, drippings, gestures and pastiness: the territory of painting.

My narrative is not linear, but enigmatic. It has a cinematic quality, states stories in media res, without beginning or end, portraying unresolved characters. There is an intentional blurring/ambiguity between fiction/reality, imaginary/factual, through the revival of cultural images and the speculative force of poetry.